MOKUSO – A Arte de combater sem se envolver

Mokuso

MOKUSO – A Arte de combater sem se envolver

Por que quem quer andar pelo caminho do guerreiro deveria pensar em meditar? Simplesmente para ver o que não consegue ver quando está sob efeito de toda a energia voltada ao combate.

Na cultura samurai, os maiores guerreiros buscavam um estado de não-mente. Não é de surpreender que a classe samurai do Japão tenha adotado a prática da meditação zen. Ele combinava muito bem com as necessidades e valores de seu estilo de vida militarista, particularmente em lidar com a questão de encarar a morte, mas também mais amplamente com sua inclinação à ordem, autodisciplina e foco - ferramentas muito úteis no treinamento das artes marciais.

 “Não é preciso ter olhos abertos para ver o sol, nem é preciso ter ouvidos afiados para ouvir o trovão. Para ser vitorioso você precisa ver o que não está visível.”

Sun Tzu

 É basicamente isso. Para você ver o que não pode ser visto, tem que esta com a mente limpa sem contaminação. Se sua mente esta repleta pela raiva, poderá deixar passar alguma coisa que pode significar sua morte ou uma condenação futura.

 Você como guerreiro e representante do Estado não deve ser levado pela emoção do momento de forma que ela turve sua capacidade de tomar decisão frente ao perigo.

A meditação busca levar você a esse estado onde seu foco esta na ação e não no indivíduo. Suas provocações não lhe afetam, somente suas ações.

 
 
Quando você não está fazendo absolutamente nada - corporalmente, mentalmente, em nenhum nível - quando toda a atividade cessou e você simplesmente é, apenas sendo você. Isso é mokuso.

Em certos momentos, uma mente silenciosa é muito importante, mas “silencioso” não significa fechado. A mente silenciosa é uma mente alerta e desperta; uma mente buscando a natureza da realidade. Não reaja emocionalmente. Praticando dessa maneira, você pode ver como a mente fraca e incapaz de lidar com problemas não pode enfrentar problemas. Mas a sua mente silenciosa de sabedoria hábil pode enfrentar qualquer problema bravamente, conquistá-lo e controlar todos os seus estados mentais emocionais e agitados.

Com a mente quieta as janelas de oportunidade se abrem
A meditação deve ser praticada e não é só sentar e colocar uma música new age e um incenso. Talvez o inicio seja isso, mas seu intuito deve ser transcender a isso. Quando chegar a esse nível, você estará o tempo todo neste estado e verá quando estiver se deixando levar pelas emoções aflitivas retornando com mais velocidade ao seu estado de não se importar com o indivíduo e sim com as ações dele.

De acordo com DT Suzuki, um dos maiores proponentes do zen-budismo no Ocidente, o Zen apelou ao guerreiro com sua insistência em avançar 100% uma vez que o curso de uma ação tenha sido decidido. Em outras palavras, o guerreiro, seja no campo de batalha ou no campo de treinamento, não deixa a dúvida ou o medo atrapalhar a conclusão bem-sucedida de um objetivo.

Ele sabe o porquê está executando a ação e porque não deve temer o resultado.

Em conversa um dia desses, com um amigo policial no Rio de janeiro, em que falávamos sobre conduta operacional, ele me diz.

“Todos os meus 11 autos de resistência a prisão foram efetuados dentro da técnica, nem mais nem menos. Não titubeei em momento algum. Sabia o que estava fazendo e o fiz com a certeza da execução correta da tarefa. Não tive medo de consequências erradas pois não haveria consequências erradas pois o procedimento estava correto.”

 Nesse momento entendi o que “Guerreiros de Elite” significam. Caras que transcenderam a raiva e o medo e fazem disso um caminho. A doutrina funciona, o método funciona.

Na cultura samurai, os maiores guerreiros eram espadachins especializados. Aqueles que treinaram em zen procuraram um estado de não-mente. No Zen, a mente vazia é a mente livre e, para um espadachim em meio ao combate, uma mente vazia livra-o da dúvida, do medo e da necessidade de cálculo ou concentração na técnica.

Esse cara desenvolveu isso de forma empírica. Chegou a um nível de profissionalismo tão grande que esta calmo em uma situação onde seu inimigo esta agitado e não pensando direito. Seu êxito nesses combates provam que ele estava em estado superior não só de treinamento tático como mental. Isso fez toda a diferença.

Uma vez que você se tomou consciente de como seu ser pode permanecer imperturbado, então, vagarosamente, você pode começar a fazer coisas, mantendo-se alerta para que seu ser não se agite.

Uma vez que o combate real começou, todo pensamento partiu e a pureza da ação assumiu. Não é algo que pode ser aprendido em um dia, mas requer um tempo de vida de prática dedicada tanto na meditação zen quanto ao combate. Um pode se fazer sem o outro, mas juntos eles criam uma síntese formidável.

Assim, a meditação não é contra a ação. Não é que você tenha que escapar da vida. Ela simplesmente lhe ensina uma nova maneira de vida: você se toma o centro do ciclone. Por esta razão é necessário se conhecer a técnica correta e Ter um professor experimentado para avisar o Praticante quando ele está se distanciando deste objetivo.

A sua vida continua, continua de uma maneira muito mais intensa - com mais alegria, com mais claridade, mais visão, mais criatividade - todavia você está distanciado, apenas um observador nas colinas, simplesmente assistindo o que está acontecendo ao seu redor.

Você não é o que faz, você é o observador mas ao mesmo tempo faz tudo. Quanto você esta no combate e vários atacantes lhe vem ao encontro , o estado de Mokuso lhe permite Observar todos os movimentos dos oponentes e você os sente como partes de seu próprio corpo, em uma grande ligação Harmônica. Aí é possível se defender e realizar técnicas eficientes.

Esse é todo o segredo de Mokuso, você se toma o observador. O fazer continua em seu próprio nível, não há nenhum problema: cortar madeira, tirar água do poço, preencher fichas de ocorrência, atender a vítima. Você pode fazer coisas pequenas e coisas grandes; só uma coisa não é permitida, e isso significa: seu centramento não pode se perder.

Essa consciência, esse estado de observação deve permanecer absolutamente desanuviado, imperturbado. Se um galo está cantando... você está ouvindo. São dois elementos: objeto e sujeito. Mas você não pode ver uma testemunha que está vendo ambos? O galo o ouvinte, e ainda há alguém que está observando ambos. É um fenômeno tão simples! Você está vendo uma árvore: você está aí, a árvore está aí, mas será que você não pode encontrar alguma coisa mais? - que você está vendo a árvore e que há uma testemunha em você que está vendo você vendo a árvore.

Observação em estado de alerta é mokuso, oque você observa é irrelevante. Você pode observar as árvores, pode observar o rio, pode observar as nuvens, pode observar as crianças brincando. Observação é mokuso. O que você observa não é a questão; o objeto não é a questão.

Somos ensinados a considerar todas as opções antes de agir, a reunir o máximo de inteligência possível e a tentar entender completamente o oponente desde o início. Para a mente zen, pensar demais leva à dúvida e à paralisia, especialmente para alguém no meio do combate mortal. É melhor avançar decididamente, esquecer o próprio ego e concluir a tarefa com a menor quantidade de análise e reflexão.

Para isso você deve saber o que esta fazendo, treinar muito para isso e não ter dúvida na hora do confronto, pois sabe o que tem de ser feito. Você se coloca na ação.

O caminhar pode ser Mokuso, se você caminha alerta. Sentar-se pode ser Mokuso, se você senta-se alerta. Ouvir os pássaros pode ser mokuso , se você ouve com consciência. Estar em um ostensivo a pé pode ser mokuso se você o faz com consciência. Simplesmente ouvir o barulho interior da sua mente pode ser mokuso, se você permanece alerta e sem fixação em um único pensamento. 

Não são seus problemas pessoais que interferem na sua ação, nem o ultimo vídeo engraçado do youtube que lhe enviaram. A questão toda se resume em não mover-se adormecido. Então o que quer que você faça é Mokuso. Você esta presente.

Com relação à morte, o Zen pode se tornar muito controverso. Para o guerreiro treinado pelo Zen, a morte não é algo a ser temido, já que o medo pode causar o tipo de paralisia que pode ser devastadora para alguém que a experimenta. Quando enfrentamos um inimigo e nos fixamos no inimigo em vez de em nosso treinamento, a mente é capturada pelo inimigo mesmo antes do combate começar.

Se você esta diante de um oponente e sente medo, já existem oponentes demais disse um dia um SGT que foi meu instrutor e não esqueço isso jamais.

Na vida cotidiana, se nos fixamos em nossos problemas ou no comportamento dos outros, nossa mente é capturada por essas coisas e não somos mais livres para agir autonomamente. Para o guerreiro treinado pelo Zen, o pensamento da morte é quase irrelevante. 

Vitória ou derrota são dois lados da mesma moeda. Colegas e inimigos são considerados iguais. Manter a sua atitude zen é o resultado mais importante. Punir sua vitória ou desrespeitar o inimigo em sua derrota deve ser evitado.

A meditação não faz com que os problemas desapareçam; nos permite enfrentá-los com uma atitude completamente diferente. 

Meditação não tem nada a ver com encontrar Deus ou despertar religioso tradicional, mas tem tudo a ver com a compreensão de como a mente funciona e como podemos nos tornar pessoas mais esclarecidas e eficazes pela prática de superar nossos próprios egos e as fraquezas inerentes de nossas personalidades e com isso sobreviver a mais um dia de combate.

Que tal iniciar hoje sua prática de meditação para se tornar um guerreiro completo? 

Mente e Corpo